Sexta-Feira, 18 de Outubro de 2019, 08h:48

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A mestra com carinho

Por: NEILA BARRETO

Divulgação

Neila Barreto

Conheci a professora Viturina Vieira Lopes da Anunciação, nos bancos da Escola Modelo Barão de Melgaço, hoje Palácio da Instrução, no centro da capital. Estudiosa, competente, rígida e, ao mesmo tempo, dócil.

Nasceu em Várzea Grande em 29/03/1939. Filha de Antônio Santiago Vieira e Augusta Lopes da Silva. No ano de 2003, com 64 anos, foi entrevistada pela mestranda Regina Simeão, do curso de educação da Universidade Federal de Mato Grosso, a qual deixou registrada a sua memória.

Viturina Lopes não estudou o magistério, como tantas outras da sua época. Fez o curso de técnico em contabilidade, assim como, Sarita Baracat. Após formada sentiu na pele as dificuldades no mercado de trabalho para a sua inserção como mulher.

Passados alguns tempos, resolveu prestar vestibular na Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT e, fez o curso de Letras. À época a justificativa que ela utilizou para realizar o curso foi a sua facilidade para escrever e acrescentou: “ sempre gostei de escrever, desde pequena já lia autores, obras, Raquel de Queiroz, José Verissimo, e, é... Aquele autor do Meu Pé de Laranja Lima, até me esqueci o nome, ”, testemunhou a Simeão. Viturina Lopes queria dizer José Mauro de Vasconcelos.

Continuando o seu depoimento, revisitando as suas memórias complementou o seu pensamento: “José, não... Autor do Meu Pé de Laranja Lima, Rosinha Minha Canoa, é..”. Era José Mauro de Vasconcelos que teimava não vir em suas memórias. “Daí eu li um montão desses livros. Gostei do Zé Mauro, José Mauro de Vasconcelos, aí eu gostava muito de ler e isso me levou a fazer o curso de Letras”, enfatizou.

Viturina Lopes, ainda, relutava com a ideia de buscar outra profissão que não fosse a contabilidade. Relutou, mas, entrou para a UFMT. Quem sabe já adivinhava que era uma vida duríssima e uma remuneração sofrida, a vida de um professor. Alunos mal-educados, em sua maioria, alunos que batem em professores, pais que batem em professores, muita tristeza... presenciamos hoje, momentos terríveis de desrespeito aos professores.

Para ela, a faculdade lhe proporcionaria novas opções e pensou: “Eu achei que assim... Não que eu pretendia lecionar, eu achei que para a profissão de quem gosta de escrever eu poderia ser uma secretária de uma firma importante, e eu necessitaria de escrever bem, daí é que surgiu a vontade de entrar no curso de Letras.

Viturina Lopes foi uma das pioneiras do curso de Letras. Entrou na primeira turma do curso da UFMT. “ Pertenci a primeira turma do curso de Letras! Da Universidade Federal”, relembrou.

A professora Viturina se referia aos anos de 1970. “Terminamos em 1970, no começo o curso que nós fazíamos chamava, Curso de Filosofia, Ciências e Letras, funcionava no Liceu Cuiabano, aí depois mudou-se para a Universidade e aí passou a ser o curso de Letras”.

Depois de concluir o curso, Viturina ainda trabalhava em um escritório. Ainda mantinha a esperança de ser uma secretária de uma grande empresa. No entanto, essa oportunidade não veio e, logo depois surgiu um convite para lecionar, mas, a contabilidade ainda estava forte em seu coração:

“Trabalhava no escritório. Aí eu pensei, acho que vou sim, por que se não for eu não vou iniciar nunca, né! Aí na época sugestionada por umas colegas que já eram professoras, já lidavam muito mais tempo que eu, passei a ingressar no magistério, e gostei! Só que no começo foi difícil, por que eu já entrei numa turma do primeiro ano de magistério do segundo para dar aula, pois é! (...) O difícil foi começar, aí logo surgiram outros convites e a gente foi entrando, foi entrando de corpo e alma”, relembrou.

Viturina Lopes começou a lecionar, língua portuguesa na escola Pedro Celestino, Escola Normal Pedro Celestino, é nesse tempo! Depois Escola Modelo Barão de Melgaço. Passaram pelos bancos dessa escola personalidades como Benedito Cerqueira Caldas, Paulo Henrique Villa (1934), Gabriel Novis Neves (1944), Oscar da Costa Ribeiro (1947), entre e outros. Além desses colégios lecionou no Centro Educacional de Cuiabá, Colégio Estadual José Barnabé de Mesquita, Escola João Briene de Camargo, Liceu Cuiabano, Escola Presidente Médice.

A diretora da Escola Estadual Barão de Melgaço, à época, em 1980, Naura Faria e Silva, explicou que o hino da escola foi escrito na década de 80 pela professora Viturina Vieira Lopes de Anunciação, que deu início a carreira na escola e se aposentou ministrando aulas lá e, a melodia foi criada pelo músico e ex-aluno do colégio Gilmar Fonseca.

Depois Viturina Lopes, também foi lecionar na Escola Técnica Federal, hoje IFMT, cuja inserção se deu em 1975.

Professora e poetisa. Seus relatos são belíssimos, timbrados pela elegância e distinção, atestando ser excelente escritora e poetisa. Parte de suas memórias já foi publicada em dois pequenos opúsculos de sua autoria: ”Na gaveta do coração”, prefaciado pelo prof. Lenine Póvoas, onde registra as lembranças da infância e juventude, descrevendo a sua trajetória de vida, seus familiares, a escola primária e as pessoas que lhe foram caras. A segunda publicação, “Um caminho para duas portas”. Trata-se de uma crônica, onde, com muito humor, reproduz o diálogo travado numa sala de professores, enquanto estes aguardavam o momento de irem para a sala de aula, informou o Portal de Mato Grosso.

Viturina Lopes lecionou 25 anos como professora e se aposentou em 1995 como professora pública e, na Escola Técnica Federal entrou em 1975 e saiu em 1992, como aposentada. Casou-se aos 42 anos, permanecendo casada por 12 anos e, depois ficou viúva. Faleceu em Cuiabá, em 2003.

 

(*) NEILA BARRETO SOUZA BARRETO é jornalista, escritora, historiadora e Mestre em História e escreve às sextas-feiras para HiperNotíciasE-mail: neila.barreto@hotmail.com

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