Segunda-Feira, 19 de Agosto de 2019, 14h:47

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Ação de ordenamento na Zona Sul encontra até casa na árvore

Por: EXTRA GLOBO

Uma megaoperação de ordenamento com 17 secretarias e órgãos públicos acolhe, na manhã desta segunda-feira, moradores de rua na Orla da Lagoa Rodrigo de Freitas e no Leblon, na Zona Sul. Na subida do Corte do Cantagalo, os agentes da Marcha pela Cidadania e Ordem encontraram um homem morando sobre galhos de uma árvore. No local, foram encontrados um saco com 15 latas com solventes, um cachimbo improvisado, uma cadeira, uma tesoura e lençóis.

Após a abordagem de assistentes sociais, o homem decidiu retornar para casa. O morador de rua tem residência fixa, e, segundo o presidente da Fundação Leão XIII, Allan Borges, foi encaminhado em um van da autarquia para a cidade de origem.

— Estaremos cadastrando ele para que possa receber um curso de capacitação técnica pela Faetec. Pelo que conversamos, ele é marceneiro. Vamos tentar intermediar os contatos para dar um emprego — afirma Borges.

Inicialmente o homen dispensou o atendimento e decidiu andar pelas ruas, porém, em um segundo contato com os assistentes sociais, aceitou a ajuda dos servidores.

— Estamos numa guerra. Precisamos dar dignidade a essas pessoas, mas estamos em uma guerra. Precisamos ocupar o território e devolver esse espaço para o carioca, para o turista. Isso é fundamental — disse Cleiton Rodrigues, secretário de Governo e Relações Institucionais.

Na operação, foram feitos quatro acolhimentos (três para o hotel solidário da Central e um para um abrigo municipal; sete pessoas foram encaminhadas para centros assistenciais (cinco deles para Laranjeiras); três voltaram para casa (um para Rocinha, um para o Cantagalo e outro para São João de Meriti). Uma pessoa foi levada para a delegacia por ter registro de desaparecida. Outros três não quiseram atendimento.

'Não lembro quanto tempo moro na rua'

A operação começou por volta das 5h30. Cerca de vinte pessoas estavam dormindo no Jardim de Alah, em Ipanema, no momento da chegada das equipes. Enquanto assistentes sociais e psicólogos faziam o atendimento e convidavam as pessoas em situação de rua para um dos abrigos da prefeitura, garis da Comlurb recolhiam lixo, carrinhos de compras, ferros, cacos de vidros e outros pertences.

— Não lembro há quanto tempo moro na rua. Vim lá de Minas e trabalho com reciclagem — contava um homem a agentes da prefeitura que não tinha nem certidão de nascimento.

Durante uma abordagem, um homem que disse ser cearense reclamou da falta de apoio do poder público:

— Tinha um rapaz sofrendo de tuberculose. Fui eu que internei ele no Miguel Couto. Eu chamei policiais e bombeiros, mas ninguém respondeu — disse.

Um homem de cerca de 30 anos e que usava um casaco da Rio 2016 protagonizou uma das abordagens mais difíceis. Muito agitado e aparentando estar alcoolizado, ele chegou a ameaçar policiais do Segurança Presente com um caco de vidro. Reclamando da presença dos agentes e da imprensa, ele retirou o casaco e, vestindo somente uma bermuda, desceu até o canal do Jardim de Alah, entrou na água e buscou uma lona azul:

— Vai ficar aí na luta pela sobrevivência — disse um agente da prefeitura, que estava com um crachá escrito supervisor, após fracassar no acolhimento.

Segundo Cristina Quaresma, secretária de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos, muitas pessoas não têm conhecimento que podem ter acesso a programas sociais.

— Nós abordamos cerca de 10 pessoas, alguns com problemas de drogas. É de interesse da assistência social cuidar dessas pessoas. Vamos tentar arrumar uma forma de a pessoa que não é do Rio voltar para seu município. Se mora longe, vamos tentar o aluguel social. É possivel dar encaminhamento até para cursos da Faetec. Queremos que as pessoas percebam que há carinho e respeito na abordagem.

Quem aceitar abrigo será levado para um centro de triagem na Ilha do Governador e, em seguida, encaminhado para um dos abrigos da prefeitura.

— Me parece ser o ponto de maior degradação da Zona Sul. Um teste da nossa Marcha para vermos erros e acertos. Vamos começar nos pontos turísticos e depois seguir para o resto da cidade — disse Cleiton Rodrigues.

Além do acolhimento da população de rua, a ação conjunta está coibindo o comércio irregular, entre outras ações de ordenamento urbano. A iniciativa, coordenada pela Secretaria estadual de Governo, é realizada na Lagoa e em parte do Leblon. O local tem trechos com visível abandono, como grades enferrujadas. Foram recolhidos um espeto de carne, embalagens de drogas, facas, tesoura e barra de ferro.

No início do mês, a prefeitura divulgou a proposta para concessão do Jardim de Alah à iniciativa privada. Sem recursos, a ideia do município é que a iniciativa privada seja responsável pela retirada de grades, manutenção do espaço aberto ao público todos os dias, a instalação de, pelo menos, quatro câmeras de monitoramento, bem como a contratação de segurança privada.

— Precisamos da ajuda da iniciativa privada e da sociedade para conseguirmos vagas em hotéis para essas pessoas passarem a noite. Ninguém está na rua porque quer. Queremos dar uma oportunidade para essas pessoas — afirmou Rodrigues.

Em junho do ano passado, uma decisão da Justiça determinou que os réus, entre eles o município, adotem providências para proteger e recuperar o Jardim de Alah, que havia sido cedido para servir de canteiro de obras da Linha 4 do Metrô. A praça foi devolvida totalmente descaracterizada e depredada. A decisão respondeu a um recurso impetrado pelo Ministério Público numa ação cível movida contra o governo do estado, a concessionária Rio Barra, além da prefeitura e da RioTrilhos.

— Encontramos verdadeiras construções, e para nosso espanto muitos moram aqui em frente na comunidade da Cruzada. Nossa marcha é para dar o direito de ir e vir do cidadão e dar uma oportunidade de saída para essas pessoas — disse Rodrigues que concluiu:

— A própria droga jé os consumiu. É dever do estado cuidar dessas pessoas. Vai acontecer todos os dias e queremos implementar 24h por dia.

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