Terça-Feira, 16 de Julho de 2019, 17h:04

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Em depoimento, Lesco acusa ex-chefe do Gaeco de fazer escutas ilegais em várias operações

Por: FERNANDA ESCOUTO

Militares envolvidos no esquema de grampos estão prestando depoimento na tarde desta terça-feira na 11ª Vara Militar de Cuiabá. Estão sendo ouvidos pelo juiz Marcos Faleiros o ex-comandante da PM, coronel Zaqueu Barbosa, o ex-secretário-chefe da Casa Militar coronel Evandro Alexandre Ferraz Lesco e o cabo PM Gerson Corrêa, cuja função era o de operar as escutas ilegais. 

Fernanda Escouto

Coronel Zaqueu depoimento grampol?ndia


Durante a oitava dos militares envolvidos na Grampolandia Pantaneira, o representante do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), promotor Vinicius Gahyva, pediu que o interrogatório fique ligado aos fatos pertinentes às investigações. Segundo o promotor, eles respondem aos crimes de ação militar ilícita, falsificação de documento público e crime de falsidade ideológica. O coronel Zaqueu resonde também por crime de prevaricação.

De acordo com Vinicius Gahyva, o MPMT não acolheu a delação dos envolvidos, mas isso não significa que os dados que estavam na delação não serão investigados. "Não há nenhuma acusação concreta, nenhuma imputação de organização criminosa. Por isso não foi aceita a delação. Mas isso não significa que ela não será utilizada, não será investigada. Não podemos confundir as duas coisas", disse o promotor.

Gahyva pediu que no interrogatório não se abra a possibilidade de abrir questões alheias ao processos, como já foi feito em outras oportunidades. “Isso seria chover no molhado. Não estamos aqui estamos aqui para defender quem é que seja. E que as defesas aqui, defendam os seus clientes, dentro do processo. Se limitem a imputação dos fatos apurados pela justiça militar".

A defesa dos acusados não aceitou o pedido do MPMT porque isso seria limitar o interrogatório. O advogado do coronel Zaqueu, Francisco de Assis,  se opôs ao pedido ministerial.  "É a primeira vez que eu vejo o MPMT querendo limitar um interrogatório”, disse o advogado do coronel Evandro Lesco, Stalyn Paniago.

Diante da argumentação dos advogados de defesa, o juiz Marcos Falleiros decidiu indeferir o pedido do MPE, isto é, os acusados poderão falar o que eles quiserem.

Depoimento de Zaqueu Barbosa

Fernanda Escouto

Coronel Zaqueu depoimento grampol?ndia pantaneira

 Coronel Zaqueu Barbosa

Após tentativa do Ministério Público Estadual (MPMT) para limitar o interrogatório dos militares acusados de participarem do esquema de escutas clandestinos, conhecido como Grampolândia Pantaneira, o ex-comandante da Polícia Militar de Mato Grosso, Zaqueu Barbosa afirmou que o objetivo da tarde desta terça-feira (16) é trazer a verdade real dos fatos.

Conforme Zaqueu, no ano de 2014, Paulo e o Pedro Taques, antes das eleições, estiveram  em sua casa pedindo uma ajuda para resolver situações que estavam ocorrendo dentro do comitê, que causavam alguns transtornos, como roubo, pessoas que pegavam dinheiro e sumiam.

“Essa foi a primeira conversa. Tiveram varias visitas na minha casa. Sempre domingo. Em uma dessas me pediram se tinha como ouvir algumas pessoas que estavam atrapalhando a reta final do pleito eleitoral. Eu não disse que sim, nem que não”, disse Zaqueu ao juiz Marcos Faleiros, da 11ª Vara do TJMT. 

No final de 2013, ele foi procurado pelo coronel Celso com duas placas, pois coisas relativas a inteligência eram tratadas com ele. Voltou para Cuiabá e trouxe as placas. Depois verificou a possibilidade de unir o útil ao agradável, pois tal ferramenta poderia ser utilizada em outra instituição. Relata que só trabalhou no Gaeco uma única vez num processo de transição e quem sabia trabalhar com o software espião e eram dois policiais, um tinha saído e ou outro estava lá, que era o cabo Gerson Corrêa.

Conforme Zaqueu, o primeiro pedido não tinha nada de irregular, pois foram espionados apenas policiais militares em desvio de conduta.

No segundo pedido, levado por Paulo Taques, já constavam nomes dos advogados José Antônio Rosa, José do Patrocínio e do jornalista Muvuca que estavam na lista de pessoas a serem inseridas nas escutas. Segundo ele, a lista foi levada por Paulo Taques no início da prática de barriga de aluguel.

Zaqueu afirmou que foi até o escritório de Paulo Taques e pegou R$ 12 mil, em espécie, para comprar os equipamentos utilizados para fazer os grampos ilegais.

Prosseguindo com o depoimento, o coronel Zaqueu disse que, certa vez, ele foi à residência de Mauro Zaque, à época secretário de Segurança Pública, que o acusou de grampear pessoas. Na ocasião,  Zaqueu acabou revelando sobre a grampolândia. 

Segundo Zaqueu, o coronel Lesco fazia coisas, porque alguém mandava. “Qual interesse que ele ou o Corrêa [cabo Gerson Corrêa] tinha de grampear pessoas?”, indagou.

"Fui usado por Pedro Taques"

O ex-comandante da PM acabou revelando ao juiz que foi usado pelo então governador Pedro Taques. "Na minha cabeça hoje está tudo claro. Eu fui usado. Eu tinha um interesse e fui atendido. O Taques valeu-se disso. O MP também porque a deputada Janaína Riva foi ouvida lá”, disse ele, afirmando, ainda, que pode pode provar as vezes que foi na casa do governador ou no palácio. “É só buscar pelas câmeras. O que estou falando aqui são fatos verdadeiros”, declarou.

Quando questionado por um dos juízes militares, Zaqueu reafirmou que cabo Gerson seria o único em Mato Grosso que sabia mexer com o equipamento utilizado nas escutas. 

“Manda quem pode. Obedece quem tem juízo"

"Manda quem pode. Obedece quem tem juízo. Mas em 2014, você fez por livre vontade? Já que não tinha vínculo com o senhor Pedro Taques?”, questiona um dos juízes militares. 

Zaqueu afirma que fez porque diziam que isso ia acabar com a corrupção. O juiz militar pergunta se isso seria uma confissão. Zaqueu afirma que está querendo trazer a verdade à tona.

O promotor do MPMT começa o interrogatório e questiona se Zaqueu levou aos superiores dele sobre o esquema de inteligência montado. O ex-comandante afirma que não repassou. “O pedido foi delegado a mim. Não me reportei a ninguém”, diz.

O promotor questiona se há outros militares envolvidos no esquema de escutas clandestinas. Zaqueu nega: “Pelo que eu saiba não”.

 

Zaqueu afirma que tem limitação de inteligência e não consegue responder algumas questões do representante do MPMT. Ele disse, ainda, que sua família foi ameaçada enquanto ele estava preso e quando as pessoas deixaram o cargo ele procurou o Ministério Público.

 

Atualizada às 18h18

Fernanda Escouto

Coronel Evandro Lesco - depoimento grampol?ndia

 Coronel Evandro Lesco

Depoimento de Evandro Lesco

Em seu depoimento ao juiz Marcos Faleiros, o ex-secretário-chefe da Casa Militar coronel Evandro Lesco afimou que, quando estava preso tentou fazer a delação premiada, porém foi desconsiderado pelo MPMT. “Não farei reservas nenhuma a ninguém. Apontarei elementos de prova”, disse ele. Durante a oitiva ele chorou e pediu desculpas à família dele e a Polícia Militar de Mato Grosso, e também à imprensa. Por ter a consciência de que tentou obstruir a Justiça, ele tambémpediu desculpas ao Poder Judiciário.

Ele também citou os fatos já comentados pelo coronel Zaqueu, a respeito do investimento inicial de R$ 12 mil para a compra dos equipamentos utilizados para os grampos clandestinos.

Lesco confirmou que era um colaborador do esquema, que era comandado por Paulo Taques, e que chegou a fazer empréstimos para poder manter o esquema.

Em seu depoimento, o coronel Evandro Lesco falou também que foi o o ex-procurador-geral de Justiça Paulo Prado, do Ministério Público Estadual, que deu duas placas eletrônicas, que compõem o sistema Wytron, usadas para os grampos

"Instância de fofoca"

Ao ouvir a narrativa de Lesco, o promotor Vinícius Gahyva, interrompeu: "Isso aqui está virando uma instância de fofoca”, disse, sobre o fato de Lesco estar relatando fatos de 2010.

“Ele não quer fazer reserva mental de nada”, rebateu a defesa de Lesco.

 

Atualizada às 19h29

Acusações a ex-chefe do Gaeco

No depoimento, Evandro Lesco falou também sobre a Operação Aprendiz, que teve como alvo o ex-vereador João Emanuel. Ele afirmou que o promotor de Justiça o chamou em seu gabinete, pedindo para que ele usasse uma decisão judicial de outra situação para inserir números de pessoas investigadas na Aprendiz. O promotor era Marco Aurélio de Castro, ex-chefe do Gaeco.

Ele cita que Marco Aurélio também grampeou a deputada Janaína Riva, na Operação Metástase. "Eles queriam ver se ela continuava fazendo as coisas que José Riva [o ex-deputado, pai de Janaína] fazia".

Ele sustentou que na Operação Arqueiro, Marco Aurélio também teria feito o mesmo pedido, de barriga de aluguel, para poder fazer escutas ilegais contra a ex-primeira dama Roseli Barbosa (esposa de ex-governador Silval Barbosa).

Um dos juízes militares insinua que Lesco cumpria as ordens ilegais por troca de favores, questiona se Lesco tinha ciência e consciência de tudo que ele fez. “Faltou força pra você dizer não? Que não queria mais?”

“Excesso de confiança”, alegou o coronel.

 

Promotor questiona

O promotor Vinicíus Gahyva questionou o que esses fatos antigos ditos por Lesco podem afetar na ação dos grampos ou na tentativa do ex-secretário consehir uma delação junto ao MPMT. "Eu gostaria de apenas esclarecer o que eu sei", respondeu o coronel Evandro Lesco.

 

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