Domingo, 20 de Outubro de 2013, 08h:34

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Mato Grosso tem tudo para disparar na liderança nacional de biodiesel

Paulo Teixeira, professor-doutor da UFMT, garante que o Estado já disputa com o Rio Grande do Sul a liderança nacional de maior produtor

Por: NELSON SEVERINO

 




Presente no Departamento de Química da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) desde 1993, com atuação nas áreas de graduação, mestrado e doutorado, o professor-doutor em Química pela University of East Anglia, da Inglaterra, Paulo Teixeira de Souza Junior, além de desenvolver uma linha de pesquisa química de produtos naturais, com destaque para estudos de plantas medicinais para na busca de novas metodologias para a produção de biocombustíveis, é também o secretário de Relações Internacionais da UFMT, cuja atribuição é cuidar de intercâmbios e convênios com universidades do mundo inteiro.

Coordenador de pós-graduação durante três anos e pró-reitor de pesquisa durante oito anos, ele acompanha também um projeto da UFMT em parceria com a Secretaria de Agricultura Familiar do Ministério de Desenvolvimento Agrário sobre o programa da inclusão social da produção de biodiesel em Mato Grosso.

Sobre esse combustível, o professor-doutor Teixeira garante que o Estado já disputa com o Rio Grande do Sul a liderança nacional de maior produtor, mas o Estado tem chance de consolidar a posição, que por enquanto é alternada, por uma série de fatores, incluindo a disponibilidade de áreas para a agricultura.

Marcos Lopes/HiperNotícias

Professor Paulo Teixeira é secretário de Relações Internacionais da UFMT e coordena pesquisa química sobre produtos naturais

Mas apesar das perspectivas animadoras para o biodiesel e o etanol em Mato Grosso, acredita Paulo Teixeira que o futuro do mundo está na energia solar, no hidrogênio e outras fontes energéticas que não dependam de plantas como soja, milho, mamona, cana-de-açúcar.

Pode ser que o petróleo nem acabe, como já se prevê, em algumas décadas. Mas as tecnologias para produção do combustível ficam cada vez mais sofisticadas e caras, o que pode inviabilizar a exploração dessa fonte de energia, cujos efeitos no clima já estão se revelando desastrosos para a humanidade.

HiperNotícias – Como está a produção hoje do biodiesel no Estado e a sua inclusão social?

Paulo Teixeira – O biodiesel em Mato Grosso disputa com o Rio Grande do Sul a posição de maior de produtor nacional. Tem ano que é o Rio Grande do Sul, tem ano que é Mato Grosso. A diferença da nossa produção com a do Rio Grande do Sul é que em Mato Grosso ela é mais pulverizada em pequenas usinas e lá é mais concentrada em indústrias maiores. Com relação a questão da inclusão social, eu acho que não avançou muita coisa porque o governo focava muito no início na questão da mamona que acabou não dando muito certo. Aliás, eu nunca apostei muito nessa oleaginosa. A soja já é mais baseada em produção em larga escala, já é mais uma produção voltada ao grande produtor. A gente tem produzido aqui também um pouco desse combustível a partir do caroço do algodão e tem uma boa produção igualmente do sebo bovino. Então, existe um incentivo do governo para a questão da inclusão social. Essa questão tem realmente progredido, mas eu acho que ela necessita ainda de ajuste, precisa de avanço, pois está aquém do desejável.

HiperNotícias – Quais são as perspectivas para biodiesel em Mato Grosso?

Paulo Teixeira – Eu acho que são boas. Mato Grosso já se destaca como celeiro do Brasil na produção agrícola e, como já disse, temos ainda o sebo bovino que já tem uma boa produção a partir de resíduos. Mato Grosso já é também o maior produtor de soja e temos ainda o caroço de algodão, que considero que é mais promissor ainda pela característica do seu óleo. Então, vejo que Mato Grosso já é um grande produtor e vai continuar sendo. Hoje temos usinas aí casando a produção de etanol com biodiesel, não é? Temos também algumas usinas aqui começando a trabalhar com etanol de milho, que não apresenta vantagem em relação a cana-de-açúcar, mas que para a característica do nosso Estado, que é um grande produtor da safrinha do milho, pode ser interessante. Nós temos um excedente da produção de milho, por isso então eu acho que as perspectivas aqui do Estado são muito boas.

HiperNotícias – Com tantas áreas ainda disponíveis para aumentar o cultivo de produtos agrícolas que podem ser transformados em biodiesel, Mato Grosso pode se tornar em um grande produtor desse combustível?

Paulo Teixeira – Mato Grosso já é um grande produtor de biodiesel e pode aumentar a sua produção, com o aproveitamento de áreas degradadas de pastagem. Tem um estudo da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) que mostra que nós temos muita área degradada que pode ser convertida para produção de grãos para biocombustível. Então, eu acho que Mato Grosso neste sentido deve ocupar uma posição privilegiada em ralação aos outros estados do Brasil. Nós temos muita possibilidade de crescer ainda sem avançar na floresta. Isso é fundamental, pois esse recurso natural tem que ser preservado..

COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS


HiperNotícias – Como profissional altamente qualificado neste assunto, como o senhor tem recebido notícias que surgem de vez em quando dando conta que as reservas mundiais de combustíveis fósseis estão a caminho do esgotamento?

Paulo Teixeira – Eu não diria esgotamento. Tem um sheik árabe que na década de 70, quando a crise do petróleo a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) era forte, que dizia o seguinte: a idade da pedra não acabou porque acabaram as pedras. Eu acho que é a mesma coisa que ele está dizendo: o que vai acontecer e que já está acontecendo é que vamos precisar cada vez mais de tecnologias mais sofisticadas e mais caras para obter o petróleo e isso vai sempre encarecendo o combustível. Outro problema que acho como principal do combustível é o dos gases do efeito estufa nas mudanças climáticas. Acho que isso, sim, é que vai condenar e abreviar o fim da era do petróleo. Nós não podemos mais continuar despejando a quantidade de monóxido de carbono e de outros gases na atmosfera como nós vimos fazendo. Não será, então, a escassez desse combustível que vai acabar com a era do petróleo.

HiperNotícias – Está faltando investimentos em Mato Grosso para produção de biodiesel? É possível ser feita uma estimativa sobre o volume de recursos que seria necessário para o Estado tornar-se um grande produtor desse combustível?

Paulo Teixeira – O estado já é um grande produtor de biodiesel e não acho que esteja faltando necessariamente investimento não; o que costuma acontecer no Brasil é o seguinte: por exemplo, o caso do etanol, que fica nesse vai e vem indefinido. Então a pessoa que vai investir não tem segurança. Ela pode investir com a certeza de que a regra do jogo não vai mudar daqui a pouco? Isto aconteceu várias vezes com etanol e recentemente no final do governo de Lula, com todo aquele movimento que se fez pelo etanol, todo mundo achava que “agora vai”. Pouco tempo depois, a gente via o governo obrigando a Petrobrás a subsidiar o preço da gasolina para segurar a inflação e por conta disso o preço do etanol também não pode chegar a um nível mais real. Resultado: o País está tendo dificuldade com a produção do etanol. Então, esse é o grande problema, não é? O excesso de mudança de regras e de intervenção do governo mudando as regras a toda hora, o que complica tudo. Acho que isso atrapalha mais do que a disponibilidade de investimento porque se houvesse segurança para se investir eu acho que o dinheiro apareceria e o interessado iria atrás.

HiperNotícias – Pelo o fato de ser considerado menos poluente que os outros produtos geradores de energia automotiva o biodiesel pode ser considerado o combustível do futuro?

Paulo Teixeira – Eu acho que o biodiesel vai cumprir um papel durante uns trinta anos no máximo. O combustível do futuro não é o biodiesel. Ele é importante agora porque é um combustível apropriado para usar em motores de veículos automotivos e também em modelos estacionários que usam diesel, O biodiesel é menos poluente que o petróleo, mas eu acho que o nosso futuro vai estar na energia solar, no hidrogênio e em outras fontes que não dependam de plantas. E que é o caso biodiesel. Mas acho que ele é importante neste período. Tanto o etanol quanto biodiesel. Eu vejo até mais futuro no etanol do que no biodiesel. No entanto, os dois vão contribuir para geração de energia automotiva nos próximos trinta, quarenta anos. Creio, no entanto, que mais do que isso, não!

Marcos Lopes/HiperNotícias

HiperNotícias – A vinda de profissionais estrangeiros graduados no setor de combustíveis para Mato Grosso através de convênios da Secretaria de Intercâmbios internacionais da UFMT poderia contribuir para avanço do Estado na área de combustíveis, principalmente do biodiesel?

Paulo Teixeira – Olha, o intercâmbio internacional faz parte da ciência e seria importante, sim, desde que haja troca de experiências. A ciência vem trocando conhecimentos desde Isaac Newton. O próprio Isaac Newton ha quinhentos anos atrás correspondia com outros pesquisadores da Europa. Então, certamente vai contribuir, não porque a gente tenha tanta coisa a aprender nesta área; pelo contrario, a gente tem muito mais a ensinar. Essa é uma das áreas que o Brasil está bastante avançado. Mas na ciência você nunca sabe nada e nunca sabe tudo, graças a Deus. E é por isso que é importante o intercâmbio.

HiperNotícias – Qual é hoje o projeto mais importante na área da economia verde que a Universidade Federal de Mato Grosso desenvolve?

Paulo Teixeira – Bem, eu diria que meu conhecimento é mais focado no biocombustível, que é a economia verde. E acho que o projeto maior que nós temos aqui no Mato Grosso todo não é só na UFMT, mas a coordenação é nossa aqui na UFMT, é o Projeto Centro Interdisciplinar de Estudos em Biocombustíveis. Esse projeto é uma parceria da UFMT com a Unemat e a Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia – Secitec. Ele envolve recursos de 12 milhões de reais.

INTERCÂMBIO

HiperNotícias
– O senhor que atua na área de intercâmbio e relações internacionais tem controle sobre todos os projetos em que a UFMT está envolvida e com quais instituições a universidade tem convênios?

Paulo Teixeira – É uma pergunta difícil de responder, porque nós temos convênios com várias instituições e quase uma centena é estrangeira. O nosso papel é precisamente esse: sair buscando intercâmbios e convênios para promover esse relacionamento em diversas áreas. Nós temos convênios com diversas instituições, com países de vários continentes – desde a América do Norte, Europa, África, Ásia, Oceania, Japão. Estamos envolvidos também com diversos programas, que estão sendo desenvolvidos através de intercâmbios, por exemplo. Agora mesmo – a entrevista foi feita terça-feira, 15 – vai ter uma mesa redonda aqui no ginásio de esportes, com o programa Santander, no qual UFMT esta inserida. Mas não é só esse: nós estamos no Programa de Licenciatura Nacional, no Ciência Sem Fronteiras. São diversos programas.

HiperNotícias – O que esta internacionalização da UFMT representa para a comunidade acadêmica?

Paulo Teixeira – Eu quero dizer que a internacionalização hoje ela se posta como uma necessidade para universidade moderna. A universidade não pode mais formar estudantes como formava na minha época: ela precisa hoje, devido à realidade do mundo em que nós vivemos, de um fluxo intenso de pessoas entre fronteiras, com internet e tudo o mais da moderna tecnologia. É como as fronteiras estão se desmanchando e cada vez mais está difícil saber, o que é de uns países. A governança está migrando de uma governança nacional para uma governança global, em função dessa realidade. Para isso, o estudante que sai daqui para estudar fora tem que ter uma visão mais global, mais ampla. Não pode mais ser provinciano, no bom sentido da palavra, como era antes: ele tem que ter uma visão mais global, até porque os problemas que a humanidade enfrenta hoje são globais. Hoje se fala de mudança climática que afeta todos os países. Isso vai exigir uma governança global e para consertar isso, como é que vamos fazer se o nosso estudante não sabe lidar com outra realidade? Não é só o nosso, mas os das universidades em geral. Então, há uma grande preocupação das universidades para que os estudantes em seus regressos saibam lidar com outras realidades, com outras culturas. Hoje em um programa de rádio, estava sendo colocado a questão de tráfico de cocaína na fronteira, e uma das pessoas que estava sendo entrevistadas disse que a Bolívia propôs a produção da coca não da cocaína. O tráfico é de cocaína, mas a Bolívia produz a coca, a coca é cultural lá: eles tomam chá da folha de coca. A Bolívia propôs fazer aqueles sachês para exportar e com isso eles teriam renda e quem sabe aquele agricultor boliviano que produz a cocaína, troca essa atividade por uma renda legal. Mas os outros países não quiseram saber disso, por ignorância, por casa do problema da cultura. Eu digo isso por que já morei na fronteira da Bolívia quando criança, e tinha uma moça lá em casa que não podia ter uma dor na barriga que ia mascar uma folha de coca, o que lá é a coisa mais normal do mundo. Mas se você fala isso para um americano ele arrepia: é ignorância, é desconhecimento da cultura dos outros povos.
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