Sexta-Feira, 17 de Maio de 2019, 16h:48

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Yasmin Nadaf: uma das vozes ilustres na Literatura em Mato Grosso

Por: NEILA BARRETO

Divulgação

Neila Barreto

 

Yasmin Nadaf é pioneira dos estudos sobre as mulheres nascidas ou residentes em Mato Grosso, que resultaram no seu livro de estreia “Sob o signo de uma flor. Estudo de A Violeta, publicação do Grêmio Literário Júlia Lopes - 1916 a 1950”, onde se escreve parte da história feminina no Brasil. Esta obra inaugura ainda as descobertas sobre a vida literária em Mato Grosso no âmbito das universidades brasileiras.

Na história da Literatura Mato-grossense e da Academia Mato-grossense de Letras-AML brilham mulheres poetisas, historiadoras, escritoras, romancistas, pesquisadoras, professoras, tais como Olga Castrillon Mendes, Marta Cocco, Cristina Campos, Elizabeth Madureira Siqueira, Amini Haddad Campos, Sueli Batista dos Santos, Luciene Carvalho, Nilza Queiroz Freire, Marília de Figueiredo Leite e outras. Aqui já falamos sobre duas delas: Lucinda Nogueira Persona e Vera Yolanda Randazzo, falecida recentemente. Hoje brindamos o leitor com Yasmin Jamil Nadaf, escritora, poetisa, professora e crítica literária.

Conheci Yasmin Nadaf nos bancos da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT, no período do curso de Letras, na década de 80. Longos anos se passaram e fui encontrá-la na Casa Barão de Melgaço, a qual congrega duas entidades: A Academia Mato-grossense de Letras – AML, da qual ela ocupa a Cadeira 38, desde 27/10/1995, cuja cadeira já foi ocupada pelos jornalistas João Cunha e Amarílio Novis, pelo médico Ciro Furtado Sodré e, pelo poeta Benedito Sant`Ana da Silva Freire e, o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso – IHGMT, onde hoje sou membro e ocupo a primeira secretaria. Feliz encontro. Lembranças passadas de uma Cuiabá mais calma e, em fase de crescimento e, que hoje, abriga milhares de migrantes e imigrantes, benvindos a nossa capital.

"Yasmin fez seus estudos na capital, da infância ao curso superior"

Yasmin é cuiabana, de 22 de maio, filha de Jamil e Laila Mussa Nadaf, dois migrantes sírios que escolheram Cuiabá para morar. Jamil nasceu em Saidnaya, era primo de Sarita Baracat, morou no Rio de Janeiro e, depois mudou-se para Cuiabá em 1948, logo após a independência da Síria, iniciando seus trabalhos com uma loja de tecidos. Depois foi substituindo por perfumes e cosméticos, tornando-se a primeira perfumaria de Cuiabá, em 1951. Acostumou-se com a cidade e procurou viver como um cuiabano e, assim procedeu até o final de seus dias.

Yasmin fez seus estudos na capital, da infância ao curso superior. Professora, especialista em literatura brasileira, pela Universidade Federal do Paraná. Em 1993 obteve o título de Mestre em Letras na área de Literaturas de Língua Portuguesa, doutorado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), em Assis/SP, e Pós-Doutorado em Letras na área de Literatura Comparada, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), além de diversos serviços prestados a Mato Grosso e ao Brasil.

Na UFMT prestou prestimosos trabalhos à instituição desde a implantação do Hospital Júlio Muller perpassando pela delegacia do MEC/MT, desenvolvendo serviços técnicos educacionais, na companhia da professora Sarita Baracat. Em janeiro de 1994 transferiu-se para o NDHIR - Núcleo de Documentação e Informação Histórica e Regional da citada Universidade, até o ano de 2005.

Dedicada à literatura e às mulheres, Yasmin tem como objeto de estudos vários temas, entre eles, a revista “A Violeta” uma revista de mulher para a mulher, como ela explica, onde, grande parte de sua produção diz respeito direta e especificadamente à mulher – a mulher – esposa, a mulher-mãe, a mulher-namorada, a mulher-filha, a mulher- moça, a mulher-educadora, a mulher estudante, a mulher-funcionária pública e a mulher-profissional liberal. Seus escritos, vindos, grande parte deles, de mulheres simples e lutadoras – umas escritoras, outras professoras, funcionárias públicas e autônomas, jovens e donas-de-casa- revelam-nos tanto o universo dessas mulheres que os escrevem como o daqueles a quem escrevem: um mundo recheado de criações literárias, desejos, lutas, frustrações, modo de ver e de viver a vida, e o dúbio pensamento ideológico conservador e de progresso.

Ao descrever o conteúdo da revista, Yamin aponta para uma revista que foi um instrumento e ferramenta de emancipação do pensamento da mulher, tirando dos submersos histórias individuais, além de acentuar que as mulheres de Mato Grosso teve participação pela palavra escrita, que também é um instrumento de luta e uma forma de apresentarem-se socialmente.  Em Mato Grosso na década de 20 e 30 surgiram as Ligas Femininas demonstrando também as diferentes participações da mulher nos diversos espaços sociais nas cidades.

Conforme Yasmin, o primeiro número de A Violeta circulou em dezembro de 1916, e o último exemplo que localizado de sua coleção data de março de 1950. Do seu aparecimento até 1920 ela foi bimestral, posteriormente passou a ser um periódico mensal.

Detentora de vários prêmios culturais, moções e comendas importantes, em 1998 recebeu o Mérito Cultural concedido pela União Brasileira de Escritores, além de ser membros de diversas associações brasileiras de literatura e integrar o quadro de sócios do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, da União Brasileira de Escritores/UBE – Seção Rio de Janeiro, sócia correspondente da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul, membro efetivo da Academia de Letras, Cultura e Artes do Centro Oeste, Cadeira n.53, cuja posse aconteceu em 11.12.1987, entre outros, está a Comenda do Mérito Cultural Lenine Póvoas outorgada pela Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso. (Resolução n.2793, de 23/11/2012, com fundamento no artigo 3º da Resolução n.759, de 03/10/2007).

Publicou diversas obras, entre elas o ensaio literário A obra poética de Silva Freire, no livro Benedito Sant'Ana da Silva Freire: catálogo de exposição, organizado pela Universidade Federal de Mato Grosso; o livro Sob o signo de uma flor - Estudo de A Violeta, publicação do Grêmio Literário Júlia Lopes – de 1916 a 1950; o livro Rodapé das miscelâneas - o folhetim nos jornais de Mato Grosso, séculos XIX e XX; Diálogo da escrita - Alagoanos na imprensa de Mato Grosso, primeira metade do século XX; Presença de mulher – Ensaios; livro Machado de Assis em Mato Grosso; Textos críticos da primeira metade do século XX; Estudos literários em livros, jornais e revistas; Catálogo de títulos sobre a mulher para o Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal de Mato Grosso o livro Páginas do passado, Ensaios de literatura, entre outros.

Pela dedicação aos estudos da literatura passou a ser requisitada para compor as bancas de doutoramento de diversas doutorandas tais como: Eliana de Almeida, na Universidade Estadual de Campinas (Letras/UNICAMP), em 18 de agosto. Título da Tese: "Folhetim: uma crônica da língua"; de Maria Cristina de Aguiar Campos, na Universidade de São Paulo (Educação/USP), em 29 de janeiro. Título da Tese: "Manoel de Barros: o demiurgo das terras encharcadas – Educação pela vivência do chão"; de Eni Neves da Silva Rodrigues, na Universidade Estadual de Campinas (Letras/UNICAMP), em 07 de abril. Título da Tese: “Impressões em preto e branco: história da leitura em Mato Grosso na segunda metade do século XIX”; de Nancy Lopes Yung Delbem, na Universidade de São Paulo (Letras/USP), em 07 de maio. Título da Tese: “Pensamento crítico-teórico de Aquino Corrêa: considerações sobre crítica e teoria literárias em Mato Grosso”; de Marinei Almeida, na Universidade de São Paulo (Letras/USP), em 04 de agosto. Título da Tese: “Entre voos, pântanos e ilhas: um estudo comparado entre Manoel de Barros e Eduardo White”; de Edileusa Ferreira da Silva, na Universidade de São Paulo (Educação/USP), em 05 de abril. Título da Tese: “Leitura: deleites e angústias. Uma fisiologia simbólica da leitura em leitores habituais e leitores não-habituais”; de Leonice Rodrigues Pereira, na Universidade de São Paulo (Letras/USP), em 13 de julho. Título da Tese: “Entre percursos e berros: o eu entretecido por fios de memória em Wanda Ramos e em Tereza Albués”; de Rosemar Coenga, na Universidade de Brasília (Letras/UnB), em 29 de agosto. Título da Tese: “Infância e leitura na memória de escritores”, de Isaac Newton Almeida Ramos, na Universidade de São Paulo (Letras/USP), em 11 de outubro. Título da Tese: “Vanguardas poéticas em permanência: a revalidação de Wladmemir Dias-Pino e Silva Freire”; de Marli Terezinha Walker, na Universidade de Brasília (Letras/UnB), em 17 de dezembro. Título da Tese: “Entre vários amores: três séculos de poesia feminina em Mato Grosso”; de Renata Beatriz Brandespin Rolon, na Universidade de São Paulo (Letras/USP), em 05 de junho. Título da tese: "No fundo do mato virgem nasceu uma literatura: história e análise de obras direcionadas para crianças e jovens em Mato Grosso".

A professora Yasmin apresenta-nos em suas obras primas, passagens poéticas, atos de bravura, luta contra preconceitos, revelando o sentimento feminino das mulheres cuiabanas e brasileiras, que à época, já faziam um intercâmbio cultural com Argentina e Alemanha, dentre outros países.  Sua pesquisa vem permeada de histórias que marcaram o trabalho de integrar à mulher ao meio social e cultural, nos apresentando o “Grêmio Literário Júlia Lopes”, que durante 34 (trinta e quatro) anos, abrigou escritoras, poetas de vários polos do Estado, a exemplo de Bernardina Rich, Maria Dimpina, Maria Müller, Maria da Glória Figueiredo, Amélia Lobo, Ana Luiza Prado, Antídia Coutinho, Benilde Moura, Maria Santos Costa e Leonor Borralho.

Quantas mulheres estudiosas estão em nosso meio. Tantos temas edificantes para os jovens conhecerem e usufruírem das suas pesquisas, importantes trabalhos sendo aqui conhecidos por uma pequena história de vida de Yasmin Nadaf.

(*) NEILA BARRETO SOUZA BARRETO é jornalista, escritora, historiadora e Mestre em História e escreve às sextas-feiras para HiperNotíciasE-mail: neila.barreto@hotmail.com

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