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Nhá Barbina, a Rainha do Mixto

Nhá Barbina revolucionou o futebol do Estado de Mato Grosso, ao ser a primeira mulher a fundar e comandar uma torcida de futebol, a “Coração Alvinegro”, e era filha de Ângelo Carlos da Silva, um zelador do Estádio Presidente Dutra, o “Dutrinha” ...

Por: NEILA BARRETO*

Divulgação

Neila Barreto


Nascida Maria Zeferina da Silva, a 10 de fevereiro de 1919, recebeu carinhosamente o apelido de “Nhá Barbina”, de um sargento do exército – “Zahur”, comandante da torcida do time rival, o Operário, de Várzea Grande. Ele e toda a torcida adversária se irritavam com os gritos desmesurados da torcida contrária, a “Coração Alvinegro”. Nhá Barbina, no comando.  Resolveram dar-lhe o nome de uma mulher destrambelhada, personagem da novela “As Pupilas do Senhor Reitor”. E o apelido ficou, pontou Maria Zeferina, enquanto viva.

Nhá Barbina revolucionou o futebol do Estado de Mato Grosso, ao ser a primeira mulher a fundar e comandar uma torcida de futebol, a “Coração Alvinegro”. Filha de Ângelo Carlos da Silva, um zelador do Estádio Presidente Dutra, o “Dutrinha”, localizado no bairro do Porto, na capital. A princípio não gostava muito, mas, ao acompanhar o pai, tomou gosto pelo futebol, ato este principiado aos 18 anos de idade.

Na carteira profissional de trabalho constava como profissão, feirante. No entanto, a sua grande paixão, por mais de 50 anos, foi o Mixto Esporte Clube, time este fundado a 20 de maio de 1934, por Zulmira Andrade Canavarros e outros. Seu destino estava traçado, ser a torcedora símbolo de um dos maiores times de futebol de Mato Grosso. Uma verdadeira professora de arquibancada no ato de comandar a torcida do clube do seu coração, em um estádio de futebol.

Nhá Barbina costumava dar uma espiadela pelas bandas do campo de futebol do Liceu Cuiabano, primeiro Estádio de Futebol de Cuiabá, antes Campo do Bosque e, mais tarde, estádio do Comércio Esporte Clube, inaugurado em 7 de setembro de 1936, hoje Liceu Cuiabano Maria de Arruda Muller. Na época, Nhá Barbina torcia para o Atlético Mato-grossense, depois mudou de lado e foi torcer mesmo para o Mixto Esporte Clube, influenciada por Frei Quirino, após a venda de ingressos para uma partida em prol da vida religiosa do nobre homem. Fez o serviço com tanto gosto que se envolveu. Queria agradar. Ingressou no Mixto Esporte Clube até o final dos seus dias.

Mulher alegre, folclórica, de uma simplicidade que vinha de um sorriso “cor-de-caju”, a mesma cor preferida para os seus cabelos, sempre no formato de um desalinho natural, ondulados, sempre à nuca, curtos. Sobrancelhas alinhadas e batom vermelho. Não costumava usar brincos e nem colares. Sua echarpe preferida era a tarja preta da camisa oficial do Mixto, sempre grudada ao seu corpo, semelhante a um manto sagrado, acompanhada sempre por uma bandeira do seu clube favorito.

Nhá Barbina foi uma revolucionária, que enfrentou o preconceito contra a mulher no futebol e ousou comandar a torcida de uma cidade inteira. Levava o seu time do coração até onde podia e, em qualquer lugar do País, fazia frio, chuva ou calor. Não havia tempo ruim para ela defender a sua bandeira.

Marcos Lopes/HiperNotícias

Nhá Barbina/Mixto

Nhá Barbina faleceu de doenças cardíacas e diabetes em 26 de setembro de 2015, em Cuiabá, aos 93 anos de idade

Tecia elogios ao seu time favorito, mas, também, não o perdoava num fracasso e destilava vários palavrões. “Era bom demais. O Mixto tá no meu coração”. Depois das palavras, dá-lhe gargalhada”, gesto perpetuado na memória coletiva dos cuiabanos e mato-grossense. 

Morava em uma casa simples, de paredes sem reboco, composto por móveis escassos, emoldurada com as fotografias do seu time do coração, acompanhadas dos seus jogadores, onde cada um era apontado pelos nomes completos e, marcados numa linha do tempo de sua atuação e formação de equipe, com direito ao centroavante Bife e ao endiabrado ponta-direita Pelezinho. Morava com o seu esposo, uma filha e um filho, companheiros das suas longas jornadas, no bairro do Porto, na capital.

Em suas memórias registradas pelo jornal diário de Cuiabá, do ano 2.000, assim Nhá Barbina professou: “Daí em diante eu comecei a ir direto pro estádio. Daí a mulherada veio atrás de mim”. Nhá Barbina menciona que não se importava em ficar no meio dos marmanjões. “E era uma guerra de porcaria. Urina, água, sujeira”, complementa e torna a gargalhar. Ela não se esquece da vez que foi ao São Januário e viu o seu Mixto ser desclassificado. “Foi culpa do Pastoril, que errou o pênalti”. Ela conta outro causo. “Teve uma vez que eu bebi cerveja. Fiquei tonta e fui parar na outra torcida. Quando sentei, senti uma bordoada nas costas. Levantei ligeiro e bati com o mastro na cabeça do rapaz. Sangrou. Daí chegou a polícia e me levou pro lado da torcida do Mixto”.

Ela era assim, natural, espontânea e singela. À época frisou: “Hoje em dia a torcedora-símbolo do Mixto não vai mais ao estádio. “Não tem o que ver. Tá feio demais”. Por fim, não se faz exagero afirmar que Nhá Barbina foi além de viver,  conseguiu fazer do Mixto um estilo de vida e personificar em si um trecho do Hino Mixtense: “Seremos sempre unidos/ E sempre destemidos/ Havemos de lutar/ E também trabalhar/ De todo coração’’. Esta foi a sua cantoria até o seu derradeiro dia.

“Daí em diante eu comecei a ir direto pro estádio. Daí a mulherada veio atrás de mim”.

 

Sarita Baracat, comandante de torcida do Clube Esportivo Operário de Várzea-grandense, assim como Nhá Barbina, também deixou suas pegadas no futebol mato-grossense no seu clube favorito, atual Operário Futebol Clube Ltda. Sarita foi eleita secretária do clube esportivo operário de Várzea Grande, no período de 1951 a 1959. Foi diretora do Santo Antônio Esporte Clube. Membro do conselho fiscal da liga de futebol amador de Várzea Grande – LIFAV e diretora da secretaria da Federação Mato-grossense de Desporto, na gestão de Ranulfo Paes de Barros. “Quando fui prefeita de Várzea Grande eu era presidente de honra do operário, de 1967 a 1969 e, tornei-o tricampeão,” recordava Sarita.

Nhá Barbina também esteve presente na inauguração da Arena Pantanal “eng. José Fontanillas Fragelli”, na partida entre Mixto Esporte clube e Santos, válido pela Copa do Brasil, onde recebeu uma singela homenagem.

Em sua velhice, Nhá Barbina, sofria com doenças cardíacas e diabetes e não resistiu, faleceu em Cuiabá, a 26 de setembro de 2015, aos 93 anos de idade. No ato do seu sepultamento, o presidente Dezinho (da Boca Suja), assim finalizou: “Perdemos nossa Nhá Barbina. Uma mulher que influenciou várias gerações e continua a influenciar. Trago a saudação e toda a solidariedade à família em nome da torcida mixtense. Pessoas como a Nhá Barbina se eternizam na memória e nas ações da torcida, sempre será eterna para nós. Faça chuva ou faça sol, Nhá Barbina sempre empunhava a bandeira do Mixto e estava disposta a enfrentar qualquer briga em defesa do Alvinegro. Continuaremos seus ensinamentos”, declarou.

No enterro, no Cemitério do Porto, o caixão foi lacrado sob fortes aplausos e aos gritos de “viva o Mixto, viva Nhá Barbina”. Pouco antes, alguns torcedores sugeriram enterrar o caixão com a bandeira do clube, quando Georgina Defensora da Silva, filha de Nhá Barbina, interviu: “minha mãe tinha um pedido de que quando ela morresse não enterrasse junto a bandeira do Mixto, ela dizia que a bandeira do Mixto nunca pode ser enterrada”, concluiu.

Descanse em paz, Nhá Barbina.

(*) NEILA BARRETO SOUZA BARRETO é jornalista, escritora, historiadora e Mestre em História e escreve às sextas-feiras para HiperNotíciasE-mail: neila.barreto@hotmail.com

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3 Comentários

Neila Barreto - 12/04/2019

O nome correto e Jamil Zarour, irmão de Moisés Zarour. Grata

Moysés Zarour - 12/04/2019

Quero registrar que o torcedor operariano (sargento Zahur) que deu apelido à Nha Barbina, trata-se do Sargento Zarour..... que “batizou” também o Operário de “Chicote da Fronteira” ...figura carismática dos anos dourados do futebol cuiabano..!! Jovens tardes de domingo, quanta alegria.. Belas tardes, belos dias ...!!!

Abdalla Zarour - 12/04/2019

Parabéns, professora Neila Barreto. Excelente artigo. Viva, Jamil Zarour, chefe da torcida tricolor de VG. Jamil e Nhá Barbina dois intermináveis personagens do nosso futebol.

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